segunda-feira, 10 de abril de 2017

Cem dias de Doria: o reacionário privatista

Em seu primeiro dia de mandato apareceu fantasiado de gari com seu sapatênis Oskeln na Avenida 9 de julho. Pura demagogia do milionário empresário com patrimônio declarado de R$180 milhões à Justiça eleitoral, na tentativa de se passar por trabalhador. Essa ação midiática serviu para anunciar, no mesmo dia, o programa de zeladoria e limpeza Cidade Linda, foi o início de uma verdadeira guerra que Doria declarou aos pixadores e grafiteiros da cidade.
Alguns dias depois, moradores de rua foram retirados da Praça 14 Bis, contra sua vontade, e transferidos para debaixo do Viaduto 9 de Julho, onde telas foram instaladas para esconder os moradores. Seus poucos pertences, como cobertores, roupas e colchões foram tomados pela “rapa” da GCM. Depois foi a vez de atacar a livre expressão nos espaços públicos retirando ambulantes, artesão e artistas de rua da Avenida Paulista. Mais adiante, o prefeito anunciou o programa "Redenção" para o tratamento de drogas na região da Cracolândia. O Esquerda Diário anunciou com antecedência o que seria visto posteriormente na região, a ação truculenta da polícia tratando os moradores de rua como andarilhos dignos de repressão. Assim, inegavelmente é a política do prefeito João Doria, higienista e de limpeza social.
O prefeito milionário trocou a vassoura pelo moto compressor, e dessa vez se fantasiou de operador de moto compressor. Mais demagogia para levar adiante políticas higienistas. Ele anunciou que apagaria o ex-maior mural de grafites a céu aberto da América Latina, assim como no “Arco do Jânio” no Bixiga. Doria passou tinta cinza sobre os grafites da cidade e gerou revolta que se estendeu por três meses após a sua posse. O prefeito dito trabalhador declarou seu ódio aos pixadores e à arte de rua com a intensificação da criminalização e completa intolerância, aprovando na câmara dos vereadores uma lei anti-pixo.
Na entrevista que concedeu ontem (9) ao G1 ele se orgulhou de ter aprisionado mais de 100 jovens ao afirmar: “Tem 102 pessoas que foram aprisionadas desde 2 de janeiro e continuarão a ser. Pichadores que pretenderem machucar a cidade, seja patrimônio público ou privado, serão aprisionados, vão responder criminalmente por crime ambiental de 3 a 12 meses de prisão, e mais as penalidades da Lei Cidade Linda, com multas de R$ 5 mil a R$ 10 mil. Comigo os pichadores não vão ter vez”. Essa afirmação é a certeza de que para o empresário vidas valem menos do que a propriedade seja ela pública ou privada.
Diana Assunção, ex-candidata a vereadora do MRT pelo PSOL, faz um vídeo denunciando a ação do prefeito. A denúncia viralizou e sua página foi e continua sendo atacada pela direita, principalmente por defensores de Doria e Bolsonaro, com comentários machistas, ofensivos, inúmeros xingamentos, ameaças de estupro e até de morte. O Esquerda Diário vem impulsionando uma enorme campanha de solidariedade a Diana, e diversos ativistas, vereadores, deputados, entre outros, manifestam seu apoio a ela. Diana carrega consigo a moral e exemplo as mulheres que participaram da Revolução Russa, e com amplo apoio nas redes sociais, Diana não se deixou abater e continua denunciando que “a cidade linda” de Doria não é apenas cinza, é privatizada também e que seu alvo não é apenas os grafiteiros e pixadores, ele cortou orçamento da saúde, educação, meio ambiente e cultura.
Sobre privatização, Doria selecionou uma lista com 55 ativos municipais a serem concedidos, privatizados ou negociados via Parcerias Público-Privadas (PPPs), permissões, comodatos, permutas ou até mesmo arrendamento. A lista inclui o Pacaembu, Parque Ibirapuera, Anhembi, serviço de iluminação, mercados municipais, bibliotecas, para citar alguns, o prefeito tucano incluiu também serviços que já estão sob gestão privada na capital. E não são poucos os exemplos de serviços já privatizados na cidade: varrição de ruas, coleta e reciclagem de lixo, abrigos de ônibus, relógios públicos, transporte escolar e de passageiros com deficiência, compartilhamento de bicicletas e até serviços municipais básicos, como creches e hospitais geridos por entidades sociais, via convênio. Doria criou a Secretaria Municipal de Desestatização e Parcerias, sob o comando do empresário Wilson Poit, para colocar a cidade à venda, e agora vai criar um fundo através da venda de mais de mil imóveis, entregando os serviços públicos de direito da população aos capitalistas.
Outra atrocidade planejada pelo prefeito é passar para a iniciativa privada a distribuição de medicamentos. Como existem poucas farmácias e hospitais privados nas periferias, a distribuição ficará concentrada no centro e bairros nobres da cidade. Mais uma vez o milionário prova o total descaso com o acesso da população mais pobre aos direitos mais básicos como o direito à medicação.
Mas os desmandos de Doria não têm passado despercebidos e sem resistência. Um ato reuniu 1500 pessoas a fim de protestar contra o congelamento da cultura. Os trabalhadores e trabalhadoras da cultura saíram às ruas no II Grande Ato em Defesa da Cultura reivindicando uma cultura pública para os trabalhadores que através de sua força de trabalho geram o dinheiro que é repassado para os projetos de fomento, mas que hoje tem pouquíssimo acesso a eventos artísticos e serão cada vez mais privados de atividades culturais com o congelamento desse repasse. http://www.esquerdadiario.com.br/Congelar-a-cultura-e-um-ato-sem-perdao
É necessário ressaltar como Doria e os golpistas estão lado a lado. Em um jantar dado por Michel Temer, o prefeito deixou de trabalhar para se reunir entre aqueles que são os responsáveis pelo golpe institucional no país.. O prefeito negou a possibilidade de sair candidato à presidência, porém, os jogos midiáticos para colocá-lo como alternativa não param. Ele declarou que aceitaria ser candidato a governador se essa fosse a vontade de Alckmin. Ou seja, diante de todo este conluio armado, cabe aos trabalhadores saberem que apoiar o Doria é também apoiar os ataques de Temer, como a reforma trabalhista, a reforma da previdência, a reforma do Ensino Médio e a terceirização, que em muito beneficiam os grandes empresários capitalistas como ele, Temer e seus aliados.
No fim de sua entrevista ao G1, o prefeito disse que vai aumentar a ação da GCM onde a juventude faz rolezinhos, principalmente no parque Ibirapuera. Segundo o prefeito foram encontradas bebidas "que não se pode definir" com esses jovens. A cidade não serve à juventude, não há espaços de lazer. Alguns parques esparsos e nada mais. O prefeito não está preocupado em fazer da cidade um espaço de interação, mas sim em reprimir mais e mais. Seu intento, como todo bom golpista, é governar para as empresas e para os capitalistas, pois nada se diz sobre o quanto as empresas lucrarão com todas essas privatizações. Enfim, segundo palavras do próprio prefeito, vamos ver quantos milagres não conseguirão ser realizados em sua gestão. Mediante tantos ataques contra trabalhadores, negros, jovens e mulheres, a rejeição a gestão do prefeito aumenta, enquanto também cresce a resistência da juventude contra os ataques dos capitalistas.

Publicado originalmente em http://www.esquerdadiario.com.br/Cem-dias-de-Doria-o-reacionario-privatista

Surto psicótico e o capitalismo

26 anos. Auge da minha vida. Trabalhava, morava sozinha e já havia rompido com grandes questões que fizeram parte da minha formação. Mas todas vieram à tona durante o surto e a principal foi a quebra com o protestantismo para uma aceitação do espiritismo. De repente você acorda olhando para a janela da clara manhã e escuta uma voz que diz ’eu posso’. Posso o quê? Posso dançar e cantar com as crianças que visualizo quando bato palmas e canto em favor daquelas que aparecem subnutridas na África. São tantos rostos e tantas vozes. Posso ajudá-las posso salvá-las. De repente gritam comigo "Se ajoelha!", contra este sistema. Tremendo pego o isqueiro e queimo o cartão que acabei de partir ao meio. Cartão do banco. Está calor, mas você treme, pois as vozes que dizem que vão te matar são incessantes e não te dão sossego.
Você perde sua carteira de identidade. Meu irmão preocupado disse que me levaria ao poupa tempo para tirar uma nova. De repente me recordei das precárias aulas de história na escola pública sobre a Segunda Guerra Mundial. O famoso poema do medo. ’Você é uma máquina’, uma máquina? Foi o que a voz me disse. Disse também que se não obedecesse seria responsável pela Terceira Guerra Mundial. Tremo novamente. Preciso obedecer, mas o quê? De onde vem essa culpa? Pessoas morrerão e talvez uma bomba nuclear extermine um povo. Porque você não obedece as vozes. Talvez os EUA permita que eu tire uma nova identidade.
Meus pés e minhas mãos estavam completamente diferentes diante dos meus olhos. Ao menos diante dos meus olhos. Maiores. ’Híbrida, é isso que você é’. Então eu sou uma mistura de humano e extra terrestre. Por isso meus pés e mãos estão se transformando. Por isso ontem ao vomitar em cima da cama depois de finalmente quebrar o símbolo do capitalismo o lustre se moveu nas minhas mãos. Teletransporte. De alguma maneira estava me comunicando telepaticamente com os meus irmãos de outros planetas. Cume dos meus dias. Era meu aniversário".
Estes são apenas três relatos dos inúmeros delírios. Em algum momento você percebe que de alguma maneira você é privilegiada. Todas as suas tias maternas tem depressão e a sua mãe se suicidou, mas isso é um mero detalhe. Genética? Como explicar um estado para o qual já foi receitado Rivotril, Clonazepan, Risperidona, Sertralina, Quetiapina e tantos outros que você já nem lembra o nome. Mal-estar na psiquiatria. A indústria farmacêutica já lucrou com você. Tudo se mistura e você cria novos sentidos. Isso apenas em um tipo de surto.
O capitalismo segue e seu diagnóstico é depressão seguida de surto psicótico. O não sentido faz todo sentido.

Publicado originalmente em http://www.esquerdadiario.com.br/Surto-Psicotico-e-o-Capitalismo

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Redenção: o programa de Doria para a Cracolândia

O prefeito João Doria anunciou essa semana, sua proposta para a população em situação de rua e dependente química, o programa "Redenção". A primeira questão a ser colocada sobre o projeto de Doria é o nome. O que significa dizer que um morador de rua e usuário de droga na Cracolândia precisa se redimir? Aparentemente o prefeito retirou este nome de alguma igreja evangélica. Na região da Luz, onde o prefeito declarou que vai focar sua atenção, essas igrejas costumam se propor a "ajudar" as pessoas em situação de rua sob a condição de que se convertam ao cristianismo. Há também organizações católicas, espíritas, umbandistas, candoblecistas e tantas outras que tem figuras conhecidas na região. Será que este nome visa parceria com estes grupos religiosos ou enxerga que o tratamento dessas pessoas precisa se dar de acordo com uma visão religiosa? De qualquer forma o estado ainda deve ser laico.
Mas não é nenhuma novidade que a atuação da prefeitura em relação a população em situação de rua não seja a ideal. Quem é morador da região se recordará que a gestão Kassab, juntamente com Alckmin, sitiou a região da Luz com a Polícia Militar. Seu governo foi responsável por uma política higienista que torturava os usuários de crack. Sob o efeito da droga ou não, os moradores de rua eram obrigados a se tornar andarilhos fugitivos da polícia, que os perseguia incessantemente. Além disso, foi proposta pelo antigo prefeito a internação compulsória, ou seja, sua gestão tratava essa questão social e de saúde como se fosse criminal, retirando também o direito do usuário ao seu próprio corpo. O objetivo dessas medidas era acelerar a dita "revitalização" do centro a fim de facilitar a especulação imobiliária.
A gestão do prefeito Haddad instituiu o pragrama "De braços Abertos", que se pintou de uma cara mais humana, mas que também utilizava da repressão para lidar com os usuários de crack por meio da GCM, como consta neste artigo da prefeitura. Sua justificativa era impedir os pequenos crimes cometidos pelos usuários de drogas, mas sua política não era direcionada às causas que levam as pessoas a morar na rua.
Voltando ao nome, a ideia de redenção pressupõe que a situação atual dos moradores de rua e usuários de crack é moralmente repreensível e que por isso eles precisam se redimir. Seria um nordestino, imigrante, negro ou indígena que de tão brutalizado pela vida no capitalismo acabou por se render às drogas o maior culpado por sua situação? Há algo a se pagar quando ocorre um problema que obviamente é social, uma vez que a constituição burguesa não garante sequer o direito à moradia? É um crime usar drogas? E qual o tratamento adequado? Todas essas questões encontram-se supenas, pois o prefeito não deu detalhes sobre o projeto com a desculpa de que é necessário garantir que haja eficácia da medida.
De acordo com o prefeito, os usuários serão presos caso não obedeçam a lei, ou seja, obviamente trata-se novamente de ação militar na região. Para Doria este é o tratamento humanitário e social, que consta em seu discurso como forma de trato com os usuários de crack. Segundo o prefeito o programa visa "revitalizar" a região da Luz, outro termo que pressupõe higienização. Foi dito também que esta é uma ação em parceria com o governo estadual e federal deixando claro a que vieram os golpistas.
Segundo o prefeito João Doria os usuários não poderão mais ficar nas ruas e serão encaminhados para regiões próximas aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Parece até bonito, mas e a autonomia de direito de cada um? Como pode um prefeito autoritariamente decidir sobre a vida de qualquer pessoa? O prefeito trabalhador fez questão de usar palavras de efeito como "boas práticas das leis brasileiras e internacionais" para manter oculto o que ninguém presenciará nas madrugadas da cracolândia com a ação da polícia. O programa também prevê a política anti dopping o que condiciona a participação do usuário de crack e automaticamente o coloca numa situação de crimininalidade. A ação será efetivada com o apoio de oito secretarias, sociedade civil e OAB. Por sociedade civil pode-se entender as instituições religiosas, cuja atuação visa conformar os moradores aos seus preceitos.
Outra questão a ser levantada é a de constatar que os usuários de crack como já mencionado, são em sua maioria negros e indígenas. Aumentar a população carcerária parece estar nos planos de Doria, pois agirá em parceria com o programa "Recomeço" do governador Geraldo Alckmin. Novamente a prefeitura agirá ao lado do governador que mostra cotidianemente o que defende: a higienização e a especulação imobiliária, pois tal programa também faz com que o usuário se isole e seja internado.. ​​O racismo institucional segue oprimindo a população negra e indígena. Aguardemos o que ocorrerá daqui em diante e o que a direita reacionária tem a nos oferecer.
Por fim vale ressaltar que o crack é uma droga de extermínio. É feita com o que tem de pior e deixada aos moradores de rua como única fuga de uma vida miserável, ou seja, o crack existe por uma questão de classe e o exército de reserva segue sendo exterminado. Faz-se necessário a legalização de todas as drogas sob controle de quem usa e trabalha. As drogas não são um mal por si só, pois na verdade deveriam ser um direito, pois expandir nossa consciência deve ser uma escolha individual.
A situação dos usuários de crack não se trata com polícia. Eu quero o fim da polícia e quero já!

Publicado também no portal Esquerda Diário onde constam todas as referências: http://www.esquerdadiario.com.br/Redencao-o-programa-de-Doria-para-a-Cracolandia

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

MInhas transformações

Faz muito tempo que não escrevo no meu blog. Isso se deu porque tive um surto psicótico que se repetiu por diversas vezes, as quais já perdi as contas, e que agora acredito conseguir controlar. Esses surtos vieram acompanhados de períodos de depressão profunda que me levaram a diversas transformações, a principal foi a capacidade de auto depreciação sem limites, a ponto de eu pensar que tudo que já pensei ou escrevi fosse lixo. Isso porque tornei-me militante revolucionária e o blog trazia na minha lembrança, traços dos tempos em que fui nacionalista ( hoje defendo a revolução internacional), ou mesmo populista (tempos em que fui petista).
Tornar-me revolucionária é algo a se deter. Essa foi a maior transformação da minha vida e o que me vem à mente é que na realidade não foi uma transformação, mas apenas a canalização correta daquilo que sempre latejou na minha alma e que sempre foi uma busca incessante: a busca pela transformação dessa sociedade de miséria. Incrível pensar que não foi necessária nenhuma teoria mais detida ou estudo de gabinete que me levasse a querer ser uma militante revolucionária, mas sim a vida concreta. Depois desse tempo em que me mantive dentro deste casulo tive coragem de rever meu blog e analisá-lo mais detidamente e pasme (!), percebi que sempre corri atrás do fim do capitalismo, sempre analisei a minha própria realidade, e sempre, simplesmente sempre, busquei me desenvolver no máximo que pude; e isto, é o que nós revolucionários esperamos no comunismo, que todos possam desenvolver (note que esta palavra contém, ao menos para mim, um sentido semântico que se liga ao capitalismo) ao máximo sua individualidade, sem contudo, esquecer-se do coletivo.
Esse texto é curto, vem apenas para marcar uma nova fase, uma fase que será diferente. Não mais quero manter-me no casulo, não mais quero me depreciar, voltarei a acreditar no meu coração, pois é ele o meu guia.

FIM

sábado, 27 de abril de 2013

Conto metido à novela

Apenas para eternizar publico aqui um conto que fiz para o término da disciplina de Literatura Japonesa no segundo semestre do ano passado. Trata-se de um conto longo que impresso daria 15 paginas (Muita coisa), mas, caso alguém se interesse, o conto tem como palco a Cracolândia.


Órbita da Repressão

1

“Crack!”. E os cacos da caneca caída estraçalharam-se no chão. Açucena percebeu que seu braço também empurrara um livro que esperava pela devida coragem para ser lido, e em breve completar mais alguma análise, de algum trabalho da graduação; porém, o conteúdo do site na tela do computador era suficiente para fazê-la ignorar as gotas de café que agora coloriam seu jeans e esquentavam a sua perna.

 “A Polícia Militar de São Paulo auxiliou na manhã desta terça-feira o cumprimento de um mandado judicial para a reintegração de posse de um prédio abandonado na avenida Ipiranga, na região central de São Paulo. O imóvel, que fica no número 000 da avenida, é ocupado por 130 famílias ligadas à Frente de Luta por Habitação (FLH).”.

Os cacos, disformes, acomodaram-se em meio a uma pequena formação, uma poça marrom, cheia de pequenas veias que se aproximavam lentamente do livro estrebuchado. O texto da tela do computador continuava a correr.

(...) a questão da moradia não é de competência da polícia e a reintegração seria feita da forma mais pacífica possível. ‘A PM apoia uma ordem judicial, viemos fazer de forma pacífica e ordeira. Não cabe à PM resolver o problema de abrigo’, disse.”. A estimativa é de que, das 130 famílias, 94 não tenham para onde ir. Para evitar o confronto, representantes dos sem-teto fizeram assembleias para discutir a desocupação. Às 9h50, o prédio começou a ser evacuado pacificamente.”.

O relógio no canto esquerdo da tela dizia ser vinte para as seis.

- Daqui a pouco preciso ir para a faculdade. Balbuciou. Cacete! Esqueci de ligar para o cliente!
Açucena trabalhava em Home Office, a experiência como vendedora em uma empresa importadora de produtos de informática lhe garantira uma clientela fiel, e mesmo em sua casa, conseguia passar os dias entre ler rapidamente algo necessário para a faculdade enquanto cuidava de sua sobrevivência.

- Sobrevivência. Pegou o telefone e discou o número da loja de seu cliente.

Nascera na Boca do Lixo, um lugar famoso pela cidade e também conhecido como “Crackolândia”, e enquanto o som do outro lado indicava uma linha  ocupada, lembrou-se do corpo daquele homem estrebuchado no chão. Estava na segunda-série e durante aquela fatídica manhã, seu pai novamente a levava junto com seu irmão para a escola que ficava a cinco quarteirões de sua antiga residência. Parou diante daquela imagem, um homem, negro, adulto, jogado no chão. Olhos revirados, pernas entrecruzadas, braços estirados, um para cima da cabeça e outro para baixo. Em meio à barriga, um furinho, de onde saía uma poça...

- Uma poça! Desligou o telefone e condicionadamente retirou o livro do chão. A página 171 ficaria para sempre marcada pelo sangue daquele homem, ao menos enquanto não estivesse novamente na estante da biblioteca esperando por um leitor que fatalmente condenaria o desleixo do antigo portador, que com total descaso ao livro, permitira que se manchasse de café.

Quinze para as seis. Acendeu um cigarro e com o celular novamente em mãos, discou o número de um amigo, companheiro, que a ajudava nas pequenas empreitadas utópicas de salvamento do mundo.

- Oi Açucena!

- Oi Davi, tudo bem?

- Hoje fui na Avenida Ipiranga, com a câmera de vídeo tentando gravar qualquer incidente na Reintegração de Posse. Peguei umas imagens com os moradores da ocupação para o nosso vídeo, mas tive que ir embora porque estava no horário de almoço. Inferno de emprego ingrato de revisor! Não posso nem trabalhar em paz.

- Vai ser assim enquanto você precisar comer. Sinto te informar.

- Eu sei... Mas e você?

- Eu acabei de destruir uma caneca. Mas enquanto isso eu li sobre a Ocupação. A notícia diz que ao menos 94 famílias não tem destino certo. Não quero pensar...

- O céu é um teto democrático.

- O teto dos tetos dominados por poucos.

- To indo pra facul, você vai?

- Não sei, talvez eu fique em casa, preciso ler umas coisas pra entregar uma resenha amanhã. Também não quero ter que fingir que neste momento não há pessoas acampadas no meio da rua esperando por uma solução da prefeitura.

- Entendo, a gente se vê amanhã então?

- Sim, amanhã vamos andar pela Crackolândia para tomar o depoimento dos moradores de rua. Conseguiu gravar o vídeo com o representante daquela ordem de advogados?

- Consegui e ficou ótimo. Obviamente ele considera a ação da polícia na Crackolândia um absurdo.

- Ótimo, então teremos mais material ainda.

- Sim, beleza, então nos vemos amanhã, se cuida!

- Beleza. Até amanhã!

Apagou o cigarro e abriu o livro. A mancha de café a assombrava e a fazia lembrar-se daquele homem no chão. Fechou o livro. Amanhã seria um dia duro, previa. Lidar com todas as histórias que viriam pela frente não seria tarefa fácil. Mas agora, como naquela música alguém precisava representá-los. Voltou-se novamente para a tela do computador, Windows Media Player, Gabriel o Pensador Acústico MTV, Resto do Mundo. Colocou os fones e ouviu a canção enquanto tentava acompanhar a letra:

“Eu queria morar numa favela, o meu sonho é morar numa favela (...). Eu me chamo de excluído como alguém me chamou (...). Eu gostaria de ter um pingo de orgulho, mas isso é impossível pra quem come entulho, misturado com os ratos e com as baratas e com o papel higiênico usado nas latas de lixo (...). Tenho que me rebaixar a esse ponto porque a necessidade é maior do que a moral (...). Pro rico e pro turista eu sou poluição, sei que sou um brasileiro, mas eu não sou cidadão (...). Eu sou o resto do mundo, mendigo, indigente, indigesto, vagabundo (...). Eu sei que a maioria do Brasil é pobre, mas eu não chego a ser pobre, eu sou podre. (...). Então que culpa eu terei, quando eu me revoltar, quebrar, queimar, matar, não tenho nada a perder, meu dia vai chegar... Será que vai chegar? Por enquanto eu sou o resto, o resto do mundo (...) Não sou consultado, registrado, batizado, não sou filho do senhor, não sou comemorado, não sou considerado, não sou empregado, não sou consumidor, não sou representado por ninguém, não sou apresentado pra ninguém, não sou convidado de ninguém, não posso ser visitado por ninguém (...). Por que eu nasci? Por que eu to aqui? Um penetra nesse inferno sem lugar pra fugir.”.

Sonho. Açucena ponderou sobre os próprios. Quais seriam? O que a sua vida lhe permitira sonhar? Uma boa faculdade, um emprego estável como resultado do esforço, uma família, talvez? Filhos, viver feliz para sempre? Uma vida tranquila. Sua amiga queria viajar o mundo, não era necessário. Seria possível ter uma vida tranquila enquanto pessoas tinham como sonho a possibilidade de morar numa favela? O que uma favela garantiria? Ao menos garantiria que a polícia não os retirasse de suas casas, atrapalhando a rotina de escola dos filhos, de trabalho... Ao menos não seriam forçados a irem para a rua. Mas a polícia desintegrou Pinheirinho, nem mesmo as “favelas” ignoradas e já organizadas, estão salvas do poder do estado; caso apareça algum magnata interessado, qualquer canto deixa de ser canto para ocupar os interesses dominantes. Como a figueira de “Bones”, que seria cortada, ainda que abrigasse os espíritos dos mortos da Batalha de Okinawa. Nem mesmo os espíritos são respeitados diante do progresso, da modernização e da perpetuação do poder na mão de poucos. Quantos espíritos rondavam as ruas do centro da cidade de São Paulo? De qual lugar teriam se apossado? Em meio à selva de pedra não há figueiras, se houver, devem ficar bem escondidas. As colunas dos prédios parecem ser um bom ponto de sustentação. Ao menos possuem uma vida mais garantida do que a vida de uma árvore.

“O meu sonho é morar numa favela”.

A música terminou. Açucena decidiu tomar banho para poder despertar e encarar o trabalho da faculdade que viria, pois fatalmente adentraria a madrugada e quiçá acompanharia o nascer do sol. Levantou-se.

- Puta que o pariu! Caralho! Esquecera-se de que estava descalça. Um dos cacos fincou-lhe o pé e uma dor fina subiu-lhe o cérebro.

- Aaaaaaaaaaaa! Inferno!

Agora, o rastro da veia que sucumbira após ser absorvida pela folha do livro, tornara-se companheira das pequenas gotas de sangue do pé de Açucena. Ao menos não mata. A vida não existe, se existe para alguém está amaldiçoada pelo sangue de outrem, como pagamento pelo privilégio. Drummond e a morte do leiteiro, que carregava leite bom para gente ruim. O sangue, o leite, a aurora. O tiro que deveria matar o gatuno, mas que matou o nosso irmão. Ocorreria o mesmo hoje? O nascer do sol, que viria acompanhar um trabalho incompleto pelos devaneios que roubavam a atenção de Açucena. Ao se dar conta do que a esperava, puxou de uma vez só, o maior caco que se formara justamente para adentrar o seu pé. Com os olhos lacrimejados, pela dor, retirou a toalha do encosto da cadeira diante da notícia e foi tomar banho.

2

- O negócio é... É como um remédio. Faltou, a galera fica mais nervosa. Isso acontece comigo. É uma parada que cê vai controlando, a mente e o organismo. Quem tem mais controle da mente, segura mais, mas tem uma hora que o organismo não segura. Aí nessa de repressão e tal; o que mudou, a galera sai mais doida pela rua, rouba mais, quem rouba, fica mais injuriado, briga mais entre si. Pra mim, piorou!”.

- Muito obrigado! Respondeu Davi enquanto guardava a câmera com a qual acabara de filmar uma moradora de rua.

- Esse vídeo vai ficar muito legal, mesmo que acabe nas nossas estantes ou esquecido no youtube. Davi riu do comentário de Açucena.

- Agora vamos Davi. Pegar a Rua dos Andradas, vamos continuar descendo pela Rua Aurora sentido Santa Efigênia e pegar a rua dos Andradas quando ela cruzar. De lá a gente sobe até a General Osório. Com certeza deve ter uma função ali.

- Uma função?

Açucena riu. Lembrara-se instantaneamente do trecho de umas das músicas do Criolo.

- Davi, faz-me rir! Não brinca que você não sabe o que significa função? Tem uma música do Criolo que falaria exatamente para você o que eu penso sobre esse tipo de reação diante de uma gíria. E função nem é uma gíria tão específica.

- Qual o nome da música?

- Mariô do Criolo, assim que chegar em casa eu te mando pelo face, mas ele diz: ‘ Pode crer mais de quinhentos mil manos, pode crer também no dialeto suburbano, pode crer a fé em você que depositamos, e fia, eu odeio explicar gíria!

- Beleza, mas o que significa?

- Função é um aglomerado de pessoas, aqui significa que provavelmente estarão usando drogas.
Ao chegarem à esquina da Rua dos Andradas com a Rua General Osório, depararam-se com um dos prédios da região, uma porta verde, fechada o dia inteiro, prédio comum, residencial. As paredes ao redor da porta acimentadas com pequenos tijolos, lembravam um telhado bem vermelho. Daqueles antigos. Açucena lembrou-se do sangue e do homem, fora exatamente ali que o vira estrebuchado no chão. Davi já seguia em direção à função, sem deixar de conferir se Açucena seguia o seu passo.

- Vamos até aquele rapaz ali na porta. Disse Açucena.

- Olá, beleza, tudo bem? Eu sou Açucena, sou uma cidadã que discorda da ação policial aqui na Crackolândia e por isso decidi com um amigo meu, fazer um vídeo sobre o assunto. Queria saber se você pode dar um depoimento pra gente, sobre a sua opinião a respeito.

- Você vai gravar?

- Pretendo, mas se você quiser posso gravar só a voz e alterar o som, você vai ver que não vamos apontar a câmera pra você, e que não tem como você estar sendo filmado.

- É que eu preciso ir andando, correria.

- Pra quê? Pra comprar droga?

Silêncio.

- Quanto custa?

- Um pedaço pequeno, cinco reais.

- Beleza, você me dá o depoimento e eu te dou cinco reais.

- O que você quer saber?

- Quero saber o que você acha sobre a ação da polícia aqui na Crackolândia. Se te disseram, se tem um lugar pra ficar...

- Nunca falaram nada. O que eles falam é vai nóia, sai fora! Dão umas paulada, umas borrachada...

- Entendi, e se você tivesse um lugar pra se recuperar, você iria?

- Com certeza.

- E se você fosse obrigado a ir, você iria?

- Com certeza que não. Até então nóis tem o livre arbítrio.Você vai se você quer. Que que adianta ó, que nem eu falo pra minha mãe. Ela fala: ‘Ah, vai se internar”. Mas pra quê? Pra mim ficar lá no dia que eu sa... ou, quantos que chega aqui, tavam na clínica, chegam e... Aí já quer fumar. Quer fumar. Tem cara que, os cara da clínica vem buscar aqui. O cara não volta. Eles quer levar uma com nóis, pagar de loco.

- Obrigada.

Davi guardou a câmera, que funcionava como gravador em sua mochila, após ter observado a cena em silêncio. Açucena retirou do bolso uma nota de cinco reais e entregou na mão do morador.

- Sai dessa, mano.

- Eu vou sair um dia.

Davi não entendeu como Açucena tivera coragem de entregar o dinheiro para o morador de rua comprar drogas. No entanto, na volta para a casa considerou as palavras de Açucena – Melhor dar o dinheiro, do que deixar ele roubar alguém, podendo prejudicar a outros e a si mesmo, ou fazer qualquer outra coisa pra conseguir droga. Além do mais, você realmente deveria ouvir Criolo, ele responde a todos os questionamentos que você me apresenta com as letras dele. Grava aí mais uma música, essa é fácil, se chama ‘Sucrilhos’, essa eu não vou dizer, se você quiser, ouça. Em frente ao seu computador, editando o vídeo, Davi decidiu ouvir a música recomendada por Açucena; no terceiro refrão já acompanhava: “Pode colar, mas sem arrastar, se arrastar a favela vai cobrar”. No entanto, Açucena também dissera que o que a fez dar o dinheiro foi a ciência de que ao menos aquela vez, ele não iria roubar. Ela, não tinha medo das reações daqueles moradores, estava acostumada, crescera ali.

De toda a experiência do dia o que mais impressionava Davi, era o fato de aquelas pessoas não quererem se identificar nunca. Apesar disso, eram receptivas, espontâneas, falavam sobre suas vidas sem nenhuma inibição. Uma das histórias chamara sua atenção, foi a de um morador que dormia em frente à Sala São Paulo, aonde já se instalara uma base policial. O mendigo desistira do sonho que carregava ao vir para São Paulo. Deixara sua mãe, pai e irmãos em busca de uma vida melhor para si e para os demais familiares. Viera ainda jovem, aos 22 anos. Aqui, porém, não pode concretizar o sonho. A vida dura, de um nordestino em São Paulo com a quarta série de primeiro grau, lhe tirara o ânimo de viver. – As negatividade da vida. Dissera. Trabalhara como pintor de diversos edifícios, contara sobre suas peripécias ao subir nos andaimes, neste momento pareceu se animar um pouco, também trabalhara como vendedor de churrasquinho na esquina da Rua dos Andradas, no cruzamento com a Rua Aurora – Enchia de gente das lojas de informática. Antes disso, vendera churros na esquina da Rua dos Timbiras com a Rua Santa Efigênia – Esse era durante o dia, então eram as pessoas que passavam mesmo. Sofrera um acidente que o deixara manco de uma perna, trabalhara como cafetão para conseguir comprar um apartamento e criar três filhos que tivera depois de se amalgamar com uma ex-prostituta, vadia, puta, vagaba, meretriz, mulher da vida ou vaca, o leitor pode escolher o adjetivo de acordo com a sua preferência. Manco de uma perna não havia quem lhe contratasse. - Se vira irmão, o mundo é assim. Criara os filhos, mas acabara ali, não quis contar os detalhes emocionais que o levara até aquela situação. Davi ficou imaginando qual seria o motivo que o levou até ali.

Cláudio, um amigo da faculdade de Davi chegara.

 - Cara o que você acha que leva uma pessoa a optar por desistir da vida e se acabar em drogas na rua. Um verdadeiro suicídio gradativo por meio do crack? Ponderou.

- Hoje eu vi pessoas que se acabam com as drogas e outras que simplesmente não querem mais viver, e vegetam.

- Sei lá cara. Bora pro Bar Drahma, espairecer.

- Já estive pelo centro hoje. Vou passar. Respondeu Davi.

3

Três latas de cerveja, duas tequilas, e Davi começava a sentir-se mais a vontade na mesa do bar. Decidiu aceitar o convite de Cláudio. Não que fosse tímido, sabia se comunicar, mas não tinha muita habilidade em conversar com pessoas estranhas e que apesar de receptivas, como geralmente as pessoas se portam em ambientes de encontro, não passavam de conhecidos do trabalho de Cláudio, ou seja, estranhos que ficariam marcados como sombras em volta das lembranças de Davi sobre o dia em que fora ao centro duas vezes, em um futuro certo, mas não vindo. Nada significante sairia dali, mas já que quando duas pessoas, ou mais, estão sem fazer nada, não custa bater um papo gostoso, acompanhemos Davi e os lapsos que permanecerão em sua mente.

- Não, muito folgada! Não fui mesmo, o que ela pensa? Eu fui contratado pra uma determinada função e não sou obrigado a acatar ordens de quem acha que manda ou sabe alguma coisa.

-Nossa, nem me fale! Olha, se eu não fosse obrigada a trabalhar...

Davi não teve paciência, olhou o relógio, oito e meia. Estava na parte externa do bar, e seus olhos podiam admirar a brisa da noite de primavera da cidade. A lua estava cheia, era possível enxergá-la do lugar em que se acomodaram. Ainda bem que não colocara nenhuma aula em sua grade às quintas-feiras. Ao menos uma folga. Cláudio, na quinta tequila pós algumas latinhas, não se sabe bem ao certo quantas, percebeu o amigo introspectivo daquela noite.

- E aí cara, ta tudo certo?

- Sim, tudo certo, estou apenas pensando nas dimensões que comportam a dinâmica da cidade.

- Quê?

- Sim, estamos aqui, agora, no bar, aproveitando um momento agradável entre pessoas agradáveis.
Aquele carro acabou de passar, no cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, quem será que está dentro dele? Que história deve ter? Será que tem filhos? Mesmo aqui, entre os conhecidos, como será a vida de cada um? A sua realidade, cotidiano, de onde vieram? O garçom, onde será que vive? De onde será que vem? Quanto tempo será que leva para chegar todos os dias ao seu trabalho para servir-nos com simpatia e gentileza? Será que está satisfeito com o que faz e com as possibilidades que o seu emprego lhe proporciona? Será que recebe o justo? Isto, nada, e dentro deste campo de visão. Como estarão os demais bairros da cidade? Os cinemas, shoppings, teatros, os metrôs! Quem estará no metrô neste momento? Será que este alguém poderia vir até aqui tomar uma cerveja conosco? Os motoristas dos ônibus, o que será que está passando na cabeça de um motorista neste momento, em Pirituba? Com certeza há um motorista de ônibus ali agora. O que será que se passa em uma Praça na Cidade Tiradentes?

- Cidade Tiradentes? É São Paulo?

- Sim, pois é, estamos pensando em São Paulo, poderíamos fazer as mesmas perguntas, sobre mais e diversas situações, sobre as cidades do Estado, do País e do mundo. E tudo acontecendo agora, você consegue mensurar tudo o que está acontecendo neste momento, no mundo, consegue imaginar desde uma pessoa que está na sua casa agora, assistindo à novela, no Brasil, ao lixeiro que está varrendo a rua aqui no cruzamento Ipiranga São João, aos amigos que estão tendo aula na faculdade, consegue pensar nas pessoas que estão acordando no Japão, ou nas que dormem na Alemanha, ou mesmo nas que estão vivendo no nosso país, a vida, com uma hora a menos que a gente, neste exato momento?

- Estou acompanhando o seu raciocínio, mas preciso confessar que o que eu to pensando agora é que preciso fazer xixi.

Davi sorriu. Enquanto Cláudio se levantava, pegou o celular do bolso e enviou um sms para Açucena, confirmando hora e local para a continuidade do trabalho dali dois dias. Precisavam de mais depoimentos.

Sentia-se contente, de uma maneira estranha percebera que o mundo é coberto por diferentes órbitas, talvez um número matemático qualquer pudesse dar conta, mas Davi não saberia dizer qual, na condição de estudante de Letras, porém, na verdade, pelas suas próprias aptidões. Concluiu que deveria ser muita coisa. Entretanto, dividindo espaço com seu ânimo, o desânimo martelava e atormentava o pensamento todas as vezes que se recordava da órbita daqueles moradores de rua com os quais tivera contato. Estava ansioso pelo o que viria pela frente.

4

- Você é a favor da ação da polícia aqui?

- Não.

- Por quê?

- Porque eles chegam... Eles chegam batendo.

- Eles já ofereceram ajuda? Algum lugar?

- Não, chegam só batendo.

- Quê que cê fazia antes de entrar no crack? Perguntou Davi.

- Eu trabalho, eu trabalho. Chega fim de semana eu venho aqui, aqui é o meu lugar. Agora, acabou aqui, eu não tenho lugar mais não.

- Entendi. Respondeu Açucena.

- Não filma meu rosto não hein?

- Não, eu sei, fica tranquilo. Muito obrigada por responder as perguntas.

Açucena continuou observando um grupo na praça ao lado, camisetas iguais, em ciranda, baterem palmas. Imitou-os, enquanto se aproximava da roda. Davi a seguiu.

- Eu fiz capoeira no Instituto Jom Bosco.

Davi começou a imitá-la.

- Você está fazendo isso errado. São três batidas de palmas, uma seguida da outra e não quatro. De qualquer modo, está evoluindo, conseguiu até fazer uma pergunta direta para o morador de rua.
Davi se auto corrigiu.

Ao redor, um rapaz ao lado do homem que tocava berimbau, adentrou ao centro do círculo com uma gaiola que continha um tucano azul dentro, ficcional, obviamente. Todos riram. E Açucena continuou a acompanhar a canção em sua mente. “Foi, foi no clarão da lua, que eu vi acontecer, no vale tudo com jiu-jítsu, o capoeira vencer”. Sentou ao lado de uma das pessoas que sentava à roda e continuou a recordar-se do tempo em que, todos os períodos da manhã da semana oficial, eram preenchidos pelas atividades fornecidas pelo instituto. Aprendera a fazer barra de pano de prato em crochê e a bordar, estas aulas aconteciam uma vez na semana, e todos os outros dias eram preenchidos por atividades de recreação distintas. Uma hora e meia de reforço escolar, os profissionais educadores auxiliavam em qualquer dificuldade nas atividades escolares oficiais, ou aplicavam atividades próprias, seguidas de uma hora e meia de recreação. Açucena adorava as sextas-feiras, aquele ano em sua turma, caíra a capoeira. Os outros dias também eram interessantes. Dois, sempre seriam dedicados à atividade física, com profissionais, que orientavam os alunos sobre as regras de jogos como vôlei, futebol e basquete, estudavam-nas e entendiam o funcionamento. Açucena não se lembrava de metade daquelas regras, mas fora interessante entender na época. Organizavam gincanas entre turmas, concorridas por queimadas e até mesmo por jogos aprendidos e ensinados curiosamente, como kickball. O dia que sobrava era preenchido por uma atividade intimista, dentro de sala de aula, os alunos se deitavam em tatames e ouviam música, músicas da natureza, todas às vezes, conversavam sobre temas triviais, assistiam a pequenos filmes, dialogavam e por fim refletiam. No entanto, a atividade que mais interessava Açucena, depois da capoeira, era marcenaria. Possuíam um local com maquinários pesados, e materiais de segurança suficientes, em que os alunos podiam cortar a madeira e lixar moldando seus próprios objetos, geralmente carrinhos. Mas esta atividade era oferecida apenas no mesmo dia das aulas de crochê das turmas, e Açucena seguia com as demais garotas para a sala de artesanato. Além disso, inventavam músicas e trava-línguas, cantados nas filas que antecediam os momentos do café da manhã e do almoço. À tarde, Açucena seguia um quarteirão e meio até à Avenida Tiradentes e entrava em sua escola com seu irmão.

“Dona Janaína dos cabelo loro, dos cabelo loro-loro, dos cabelo loro”.

Continuavam a mover-se ao som das palmas, mas um certo senso de responsabilidade recaiu sobre a consciência de ambos e decidiram por continuar a caminhar pelas ruas do centro de São Paulo. Precisavam de mais depoimentos, era urgente documentar. Ao chegarem ao Vale do Anhangabaú, avistaram um pequeno aglomerado de pessoas sentadas próximo aos chafarizes e colheram mais informações. Cansados do exaustivo dia, decidiram tomar uma cerveja.

- Vamos ao Salada Recordes, é do lado do bar Drahma.

- Sim, sei onde fica. Vamos.

Deitada em sua cama, Açucena refletia sobre o dia que tivera naquele sábado. Precisava fazer mais um trabalho da faculdade, mas optou por dormir mais algumas horas, dormir ainda lhe parecia uma necessidade humana. Na noite anterior, após deixar Davi próximo ao metrô Santa Cecília, Açucena voltou para sua casa aonde a esperava sua amiga, mais chegada que irmã, com quem dividia apartamento. Suas conversas eram sempre profundas e Açucena as denominava “conversas de autoconhecimento”.

- Hoje fomos no Anhangabaú.

- É. E aí?

- Conversamos com os moradores que estavam ali. Pegamos mais alguns depoimentos, mas o mais interessante foi a conversa que tive com uma das meninas. Ela me contou que estava na rua há pouco tempo e que saiu da casa de sua mãe por causa do namorado que vive na rua. Ela tinha voltado antes, pra casa da mãe dela, mas optou por voltar pra rua.

- E o que ela fazia antes?

- Ela trabalhava em uma boate, disse que é uma dessas do centro. Fugiu de casa com 15 anos de idade, depois de uma crise de transtorno bipolar. Disse que não aguentava mais a repressão do pai e o quanto ele oprimia a vida dela. Acabou em um desses mocós aqui do centro.

- E como ela conheceu esse namorado?

- Sempre nas ruas, mas o crack é recente. Parece que deu certo com este rapaz e ela prefere ser feliz, ainda que nas ruas. To lembrando do Harry, a Masayo também optou por ele em “The Silver Motorcycle”, aquele conto que te falei.

- Lembro, mas ela recebia um cheque todo mês não é?

- Sim, sim. Funcionalismo público exercido por meio dos corpos de outros seres. Enfim, é uma pena que essa moça não vá receber um cheque mensal, mas acredito que se optou por isso, tem seus motivos né, Anne?

- Cada um sabe o preço do papel que tem, e de onde vem. Já disse o Criolo, nega.

- Verdade.

5

“Chão. Chega perto do céu, quando você levanta a cabeça e tira o chapéu”.

Lenine. Sem dúvida a maior referência de Açucena, aquele de nome Tupi e Guaykuru, Jack é brasileiro, Pernambuco, leão do norte, ecoa o ão daqueles que também são coração. Se esta novela, fosse novela, não seria uma novela. Seria algo diferente, quebrado, desestruturado, maior, o coadjuvante seria protagonista e o anti-herói seria o leitor e o narrador não existiria, a realidade seria suficiente. Se esta novela, fosse novela, não existiria. Mas, como não é nada, o caro leitor, também pode escolher como nomear.

Sentou-se no banco em frente à biblioteca da faculdade, esperava por Davi. O vídeo estava finalizado, mas ainda precisava de um nome, fone de ouvido e a música lhe permitindo sensações.

- E aí beleza?

Açucena tirou os fones de ouvido. – Beleza.

- Terminei de editar o vídeo. E já pensei no nome, “Órbita da Repressão”. O que você acha?

- Órbita? Bom nome. Melhor do que o que eu tinha pensado, “A verdade por trás da Especulação Imobiliária”, nada mais clichê.

- É, pensei um pouco para considerar este nome. O que você estava ouvindo? Lenine?

- Lógico.

- Me mostra a melhor música que você tem dele.

- Bom, talvez essa ajude a definir o sentimento que tive com essa experiência toda, posso compartilhar com você.

- Ok. Qual o nome?

- “Isso é só o começo”.

- Como você acha que essas pessoas se sentem?

Ponderando, Açucena respondeu: - Só consigo pensar em um poema belíssimo de Francisco Alvim, inclusive decorei.

- Mesmo? Como é?

DESCARTÁVEL

Vontade de me jogar fora.

- Acabou?

- Sim.

Açucena entregou um dos fones a Davi, que se acomodou esperando que a expressão à qual ela se referira, fizesse jus ao que não conseguia entender. Esta narradora se despede tranquila e certa de que ao se tornar pré-história, a pós-modernidade justificará a falta de nexo deste fim. Enquanto isto, os dois amigos, no banco em frente a sua faculdade, ouvirão a canção sentindo-se expressados.

Isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Aqui chegamos, enfim
A um ponto sem regresso
Ao começo do fim
De um longo e lento processo
Que se apressa a cada ano
Como um progresso insano
Que marcha pro retrocesso
E é só o começo
Estranhos dias vivemos
Dias de eventos extremos
E de excessos em excesso
Mas se com tudo que vemos
Os olhos viram do avesso
Outros eventos veremos
Outros extremos virão
Prepare seu coração
Que isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Aqui chegamos, porém
Num evento diferente
Onde a gente se entretém
Um ao outro, frente a frente
Deixando um pouco ao fundo
O ambiente do mundo
Por esse aqui, entre a gente
É só o começo
Assim nesse clima quente
No espaço e tempo presente
Meu canto eu lanço, não meço
Minha rima eu arremesso
Pra que nada fique intacto
E tudo sinta o impacto
Da ação de cada canção
Preparem-se irmã, irmão
Que isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo, é
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo, é
É só o começo.

 

domingo, 23 de setembro de 2012

Sentimento do meu mundo.

Ultimamente não tenho me sentido apta a expressar nenhum tipo de opinião. A realidade é realmente muito cruel e eu sinto que as pessoas optaram por acreditar que atrocidades não ocorrem; é compreensível.
Eu tive um curso na faculdade e estudamos Drummond, lembro que o professor disse que o livro "A Rosa do Povo", publicado em 1945 refletia o "sentimento do mundo" naquele período. As pessoas tinham medo, era um tempo de guerra, o fim da Segunda Guerra Mundial.
Uma vez eu postei um poema deste livro "A morte do Leiteiro", postarei novamente no fim, porque é um belíssimo poema que retrata os extremos aos quais um sentimento que se torna geral, devido às circunstâncias políticas, pode nos levar a chegar.
Porém o foco deste post é o sentimento do mundo de hoje; eu não me sinto apta a postar nada por inúmeros motivos, o primeiro é constantemente perceber a diversidade de ideias, posturas, opiniões, diretrizes, valores, realidades; essa percepção me assusta e me apresenta o quão pequeno é querer que apenas uma verdade seja aderida; diante de algo que me coloca estarrecida e que me derruba, me faz refletir, me faz contemplar assustada, penso que o melhor é entender que o lugar que no mundo me pertence será melhor conduzido se eu souber que ele é restrito, o que não o diminui, porém o torna efetivo nesta grande engrenagem que é o mundo.
Tanta coisa para pensar, tanta coisa para ficarmos "por dentro", quantas coisas a fazer ao mesmo tempo e nas quais precisamos estar atuantes para cumprirmos minimamente nosso papel como parte de um coletivo, desta engrenagem maior e que não diz respeito apenas ao nosso umbigo, não é tarefa fácil, por vezes dolorosa e justamente por este motivo fingimos não perceber o mundo cruel que nos cerca. Vemos constantemente os extremos cometidos pelos motivos mais fúteis e ridículos referentes apenas aos interesses daqueles que dão as diretrizes em um mundo que a poucos pertence. Ordens de reintegração de posse nas ocupações em prédios inutilizados e que passaram a abrigar famílias que possuem filhos nas escolas, empregos, uma rotina, sendo realizadas para revitalização no centro; ação policial contra moradores de rua, indigentes, problemas a menos; incêndios em favelas que coincidentemente estão em regiões que sofreram valorização imobiliária; proibição de "sopas", "livros", sucateamento de bibliotecas de bairro, universidades; essas questões apenas no âmbito da nossa cidade, São Paulo, e apenas dentro de uma questão que nos diz respeito, isto é um recorte pequeno e por que não ridículo, diante de toda a complexidade que é a vida dessa engrenagem e daqueles que vivem as diferentes realidades dentro da dinâmica da cidade.
Em relação às "valorizações das regiões", já é sabido que estes fatos que ocorrem diariamente no centro se estenderão a demais regiões no futuro, ou seja, é só o começo.
Se pensarmos no Brasil, na minha cabeça imediatamente questões surgem como economia do que eu nada entendo, crise, meio-ambiente, Belo Monte, Índios, cultura e diversidades respeitadas, inclusão social, desenvolvimento sim do Norte e Nordeste e o nojento pensar paulista em relação ao seu papel nessa engrenagem maior. Mundialmente, o que me vem, imediatamente, é a perseguição constante aos muçulmanos que se dá ainda devido ao conceito de "América para os americanos", compramos a ideia de uma mídia vendida à pior referência que se pode ter, sem nada entender sobre a realidade política daquelas nações, sua história, religião e pensamento; recentemente descobri mais profundamente a história do Japão e do quanto aquele povo sofreu por precisar se submeter primeiramente a um governo imperialista e após isso ainda foram obrigados a permanecerem subjugados aos erros de seu governo e à força militar imposta pelos EUA ali, quantos povos sofreram e sofrem, e como é triste ver que diante disso tudo os seres humanos conseguem tornar suas vidas ainda mais insuportáveis, porque aprendi recentemente também que os japoneses além de serem uma excelente referência em diversos aspectos que acredito já serem de senso comum, são também separatistas e preconceituosos; e, como todo bom "ser humano" consegue piorar ainda mais a sua própria vida; nada que seja diferente daqui, aqui é a mesma coisa, vivemos a ilusão de que não há preconceito, injustiça social, morte. Prefiro nem pensar nos índios americanos, nos nossos irmãos africanos, e eu citei nada, absolutamente, em relação ao tamanho e aos países do mundo, até porque não saberia fazer isto. O mundo é vasto, vasto mundo, disse Drummond no poema deste mesmo livro "A Rosa do Povo", o poema chama-se "Sete Faces", porém ele mesmo responde: "Mais vasto é o meu coração"!
Lenine me inspira, e me inspira mesmo, eu não sou a maior conhecedora de música e nem tenho essa pretensão, mas muitas vezes me percebo diante de um poeta, sensível, sagaz e inteligentíssimo, se não o for, não tenho problema algum em fazer parte do seu  "público-alvo", faço com orgulho. Deixarei antes do poema uma música que definiu o meu sentimento, o sentimento das conversas que tenho com amigos, do meu mundo, da minha caverna; espero que alguém se identifique, o título é: "Isso é só o começo" e faz parte do novo CD, "Chão", baseado na música concreta que busca os sons reais, concretos, da natureza, da vida, nesta música há sons da natureza e também de uma máquina de lavar, passos e demais elementos usados nas faixas anteriores, deixo como dica a música "Uma canção e só" que se baseia no som de uma chaleira.
Termino o post aqui, porque não tenho nada a dizer, não me sinto apta, sinto apenas que "é só o começo".

Link da música: "Isso é só o começo: http://www.youtube.com/watch?v=Mk3eDRGZB9w

 POEMA: "A Morte do Leiteiro" - Carlos Drummond de Andrade

A Cyro Novaes
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Um convite à Reflexão

O que somos? Cidadãos, trabalhadores, estudiosos, cristãos, irmãos, filhos, namorados, amigos?

Diante da sociedade todas essas nomenclaturas referem-se apenas aos rótulos superficiais que tentam definir aquilo que somos internamente.

O que seríamos em uma sociedade em que nenhum desses rótulos ou papeis sociais encontram espaço para serem exercidos? Ou ainda, em que nem mesmo aquilo que realmente somos no nosso íntimo encontra espaço para dar o seu grito?

Órbita da Repressão é um vídeo independente que possui um viés político.

Por meio de relatos de moradores de rua e opiniões de especialistas trata da questão da Ação da Polícia na Cracolândia, centro velho de São Paulo.

Um convite à reflexão, apenas isso.







terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Conexão

Bom, no meu blog eu admito mais do que no facebook expor minhas opiniões apaixonadas, ou até mesmo meus desabafos. Também não me preocupo com os julgamentos dos críticos facebookianos sobre postagens, primeiro porque considero ridículo indiretinhas via facebook e segundo que se porventura algo me desagradar na postagem de qualquer pessoa que seja, ainda me resta a opção ocultar, mas dificilmente faço isso porque as pessoas que eu permiti que fizessem parte da minha rede, são pessoas que eu tenho total interesse em saber sobre tudo.

Sim essa é uma opinião apaixonada e se você não gosta de pontos de vista desse tipo, recomendo que pare a leitura por aqui.

Amanhã haverá um ato que vai contra a política que o Estado de São Paulo resolveu exercer em relação aos usuários da Cracolândia. E eu irei porque assumidamente sou contra.

Eu cresci na Cracolândia. Por um acaso do destino, de Deus ou de qualquer coisa que se assuma como responsável, nunca fui uma vítima direta das drogas, e graças ao meu pai que sempre trabalhou apesar de possuir "limitações físicas", apesar de ser deficiente, nunca me faltou nada. Porém não sou apática a essa realidade porque a visão ainda continua sendo um dos meus sentidos.

Tenho amigos de infância que se tornaram vítimas do problema social que é a Cracolândia e que acabaram entrando nas drogas. Tive a oportunidade de fazer parte de uma comunidade que lidava diretamente com a recuperação dessas pessoas. Em meio a essa realidade, o que eu aprendi sobre tudo isso, é que o que a Cracolândia possui são pessoas e não zumbis. Pessoas marcadas das piores maneiras possíveis e pelas piores expressões que o nosso sistema prevê para a sua própria existência. Mas que ainda são pessoas.

O Governo de São Paulo agora finge se preocupar com essas pessoas querendo resolver o seu próprio problema torturando-os por meio do cansaço e da abstinência. Um estado responsável pelo seu surgimento, pela sua permanência e agora pela grotesca forma que optou para sua eliminação. Sim, porque eu sempre me lembrarei da forma que optaram para lidar com o problema, nunca apoiei este governo e a partir de agora para sempre não apoiarei.

Eu sou estudante da USP e desde os fatos ocorridos ali com a PM, tenho sido uma ativista constante e por vezes chata a respeito do que a PM significa. Porém, minha opinião sobre a Polícia não surgiu porque me tornei estudante da USP e sobre isso já discursei bastante em um post abaixo. A minha opinião sobre a polícia foi formada desde sempre, isso porque sou a Keyth antes de exercer qualquer papel social. A Keyth cresceu na Cracolândia.Vivi em meio a uma realidade em que a polícia esteve presente apenas para se aproveitar dos usuários tanto quanto traficantes. Por vezes vi da minha própria janela policiais repassando drogas.

Generalizo as pessoas que assumem a profissão de policial? Não. Como em qualquer lugar, corporação, empresa, faculdade, etc, existem os responsáveis e os pilantras. Acontece que ali, naquela região o contato que tive foi com os que são ou se tornaram pilantras.
Já entendi que a própria corporação os cria com seus métodos militares e desumanos, humilhando-os, o filme Tropa de Elite também serve para mostrar isso. Geram seres humanos que transmitem exatamente a forma como são tratados por este próprio estado, pois não possuem salários dignos, e, por mais que tenhamos passado o tempo de ditadura, ainda são preparados para lidar com seres humanos como naquela época.

Em uma conversa com um policial em frente a minha casa, soube por meio dele, que sequer possuem o direito de se organizarem em sindicatos ou de protestar, senão são logo descartados. Perguntei: "Por que você se submete a isso?", e ele me respondeu: "Porque tenho dois filhos para criar". Resta a pergunta: Será mesmo que essa nossa segurança não é questionável? Eu não consigo pensar que não seja e como estudante me levantei para o debate pois enxerguei a força que esse papel social possui. Uma força que um usuário infelizmente não possui para alguns, porque para mim, a opinião que um usuário possui é tão relevante quanto.

A Cracolândia sempre foi esquecida. Esquecida da mídia e da sociedade paulistana. Hoje com a especulação imobiliária ela se tornou uma questão relevante ao governo e a essa mídia golpista e capital que possuímos. Ainda bem hoje temos a internet, mas enfim tomemos cuidado com SOPA e PIPA.

Inevitavelmente a sociedade parece pela primeira vez ter enxergado que essa é uma questão e um problema a ser resolvido por todos, seja por atos, seja pelo terceiro setor, filantropia, etc. ou mesmo para se sentir no direito de opinar a respeito. E devo dizer: é sim. Como cidadãos os paulistanos possuem todo o direito de opinar a respeito do tema, mesmo que isso fira o ego das pessoas que sempre estiveram em contato com essas pessoas. Se isso não fosse legítimo, não poderíamos opinar em relação a nada que ultrapassasse 5km de distância das nossas próprias realidades, e não é isso que ocorre.

A essas pessoas que apesar de não terem vivido essa realidade de perto, mas que possuem a mesma visão, de que os usuários são pessoas e que não há guerra contra as drogas que justifique essa ação mal planejada, que não prevê reabilitação a todos e muito menos a questão da internação compulsória como humana (sim porque isso está sendo proposto), é que eu venho fazer o apelo para que compareçam ao ato de amanhã na Praça da Sé no primeiro horário. Estejamos lá! Eu estarei!

E eu não faço a mínima idéia de quem organizou esse ato, não sei se foi partido, se foi associações que trabalham com essas pessoas, já vi que ambos estarão presentes, assim como cidadãos que se assumem comuns, como eu. E eu também não quero saber! Eu estarei lá, porque sou humana e considero uma verdadeira barbárie a forma como essas pessoas estão sendo tratadas. E se, se sentir ultrajada com qualquer assunto que remeta ao social significa para alguns, necessariamente ser de esquerda, então eu me assumo feliz e com orgulho BICHO GRILO!!! Independentemente disso eu sou de esquerda mesmo, porém considero que ser uma pessoa humana, não está necessariamente ligado ao partido que se apóia ou à ideologia que se tenha.

Pinheirinho me afetou tanto e está me afetando, porque eu vi pessoas que se organizaram, que construíram suas casas sendo desrespeitadas e ultrajadas por um estado que visa apenas o lucro. Percebi que jamais poderei condená-los caso se tornem usuários de drogas, bandidos ou qualquer nomenclatura que se use. Não possuem mais nada a perder, perderam suas casas, perderam seu tempo, perderam sua dignidade. Alguns perderam a presença de pessoas que foram mortas, há o relato dos moradores de uma criança de 3 anos que morreu asfixiada pelas bombas de gás lacrimogênio. A "grande" mídia não noticia isso, mas entre o que me é apresentado pela mídia e o que me é apresentado pelos moradores, eu sem dúvidas fico com a versão dos moradores. Será completamente compreensível se optarem pelo auto suicídio que uma droga como o crack representa.

Sobre o sentimento que essas pessoas carregam consigo mesmas eu nunca poderei ter real noção do que seja, quer dizer não sei, neste sistema nunca podemos contar com o amanhã por mais que nos esforcemos.Deixo abaixo uma música que considero magnífica do Gabriel o Pensador sobre o tema, sobre ser mendigo, sobre ser excluído da sociedade e viver nas ruas, realidade dos usuários da Cracolândia e agora dos ex-moradores de Pinheirinho. Concordo com a letra, de alguma maneira vai de encontro com aquilo que consegui apreender. Sim apreender, porque é impossível aprender sem experiência.

Para quem não quiser ouvir, deixo previamente uma frase da música: "A NECESSIDADE É MAIOR DO QUE A MORAL!". Ah meu amigo, a necessidade é MUITO MAIOR DO QUE A MORAL!!!
Convido: Todos ao ato amanhã!! CONTRA A HIGIENIZAÇÃO E A FAVOR DE TRATAMENTO DIGNO AOS USUÁRIOS!!!!
Porque apesar do desânimo apresentado no texto, ainda acredito sim que as coisas podem mudar. Opto por ser OTIMISTA E LUTAR! Como sabiamente diz uma música do Teatro Mágico: MILAGRES ACONTECEM QUANDO A GENTE VAI A LUTA!

Keyth Costa

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tic Tac!

25 anos...
Primeiro pensamento: “Porra falta 5 pra 30!”.
Mas por que este é o primeiro pensamento? O que significa 30? O que representa 30?
Bom, talvez que obrigatoriamente com essa idade algo significativo deva ter acontecido na minha vida. Será que precisa?
Significa também que não sou mais uma adolescente, não posso mais enxergar o mundo com olhos de criança, a realidade nos cerca o tempo inteiro. Significa que a sua juventude está ficando para trás e com ela uma provável saúde e até mesmo uma provável beleza.
Uma pessoa com mais de 30 anos que leia isso pode até se sentir ultrajada, afinal quando eu pergunto a idade de alguém e este alguém me responde: “36”, eu penso: “Que novo!”. Por que para mim, ao pensar na pessoa da Keyth, 25 que falta 5 pra 30, parece tanto?
Drummond descreveu o medo como o sentimento do mundo de 1945. Hoje acreditamos viver livremente, conectados, “in’s”. Tudo acontece ao seu redor, pessoas casam, ganham filhos, constroem a vida, conseguem bons empregos, se formam, trabalham, namoram, viajam, não fazem nada, morrem, guerreiam, fazem revoluções... E você o que faz? Trabalha e estuda, NADA parece ser o que acontece na sua vida. Às vezes penso que o sentimento do mundo de hoje é o de impotência. Essa impotência agregada à completa insatisfação humana acarreta os males do nosso século.
Eu não tenho 25 anos na minha alma!! Eu tenho 50 quando preciso ser experiente e madura para lidar com a realidade e arcar com conseqüências, tenho 12 anos quando me apaixono. Tenho 18 quando descubro algo novo que me faz sentir livre. Tenho 5 anos quando choro querendo colo de mãe, tenho 25 anos ao viver e tenho 1 ano ao perceber enquanto vivo que eu não sei nada absolutamente e que dificilmente saberei.
Eu não gosto de tipos, eu sempre digo isso. Eu não gosto porque não sou um tipo. A cada momento eu sou uma coisa nova e eu gosto dessa dinâmica, gosto de ser a Keyth que acredita e defende piamente aquilo que acredita e gosto de ser a Keyth que muda de idéia e que depois defende tudo ao contrário. Eu gosto de não ser nada.
Mas com 25, faltando 5 pra 30, parece que preciso ser mais, parece que preciso me encaixar, parece que preciso construir, parece que preciso definir e eu não quero fazer isso!!! Eu quero paz.
Os índios não contavam o tempo, a natureza lhes dizia as horas, sua numeração ia até 4, sua idade era contada juntando castanhas... Ah meu pai! Quem me dera! O tempo quantifica, prende, qualifica o que não é e nunca vai ser qualificável: sua vida, seu espaço, seus sonhos, seus projetos e metas. Eu não gosto do tempo, não gosto das horas.
Eu gosto de mim, sou grata por cada coisa que vivi nesses 25 anos, mesmo as coisas mais terríveis formaram a pessoa que sou hoje. Todas as coisas, pessoas que passaram pela minha vida, mesmo aquelas que hoje não fazem parte cotidianamente são parte do que sou hoje, todas, sem exceção. Eu gosto das pessoas, gosto de sonhar, gosto de sonhar como aquela garota de 12 anos, e eu tenho 12 anos todos os dias, mesmo tendo que fingir que sou a Keyth de 50 anos. Continuarei sendo, mesmo com 50 anos. Porque parece que uma pessoa de 50 anos necessariamente precisa ser madura e sábia, mas ninguém tem que ser nada, você tem que ser você.
“ Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Leminsk
Acredito nisto! Acredite nisto! E não crie um além, o além pode ser apenas o seu pensamento, aquilo que você é e que é inalterável, puro e inalcançável, pois só você, sendo você, vivendo o que viveu poderia pensar; e isto acredite, é tremendo!
E eu sou a Keyth com 25 anos, faltando 5 pra 30, com coração e medos de 12 , descobrindo o mundo como a de 1 ano e vivendo os 25 anos.
Espero da vida que eu possa ser para aqueles que amo alguém que motive, que apóie e que faça a diferença apenas por ser eu mesma, mais nada. O que vier a mais será sempre lucro, tudo que veio a mais tem sido lucro, e eu sei que estou cheia de déficits. Espero apenas sabedoria para reavê-los.
Obrigada vida por mais um ano!

Keyth

sábado, 19 de novembro de 2011

Explicação!


Olá meus amigos mais chegados que são aqueles que eu realmente me importo com a opinião.
A vocês eu gostaria de explicar o que estou defendendo quando aderi o greve estudantil que está ocorrendo na USP.
Tudo começou quando três estudantes foram pegos fumando maconha. Mentira, a discussão já estava proposta por alguns grupos específicos, porém as pessoas que possuem o meu perfil que é o de trabalhar e estudar não estavam interessados na discussão porque simplesmente por viverem uma realidade a parte que é a de pagar suas próprias contas no fim do mês, não consideravam a discussão relevante. Além disso havia também o perfil dos estudantes que acreditavam que a polícia está para nos defender e por isso consideravam essa discussão menor.
O que aconteceu no dia em que os três estudantes foram pegos com maconha, foi que a polícia havia passado o dia inteiro rondando a FFLCH e abordando estudantes que estavam indo e vindo. Quando no fim do dia, a polícia encontrou estes três estudantes e os queria prender, os estudantes da USP que conhecem seus direitos não quiseram permitir porque sabem que usuário de maconha não pode ser preso, isso não foram os estudantes que determinaram, foi a lei. Além disso, os estudantes se doeram porque sabem que para prender três estudantes que estavam fumando maconha, não era necessário 40 homens, com cavalaria, carros, etc. Pergunto a você meu amigo, alguma vez que você ou alguém que você conhece foi assaltado, a polícia por um acaso apareceu com esse aparato todo para te defender?
Visualizando o absurdo que foi o show da PM, muitos estudantes que presenciaram o que a PM fez naquele dia se atentaram à questão da PM na USP e aderiram as discussões que acabou com a ocupação da reitoria. Até aí, eu ainda continuava vivendo o meu mundinho sem maiores alterações.
Acontece que os 73 estudantes que ocuparam a reitoria receberam de um Oficial de Justiça, uma decisão judicial que dizia que eles tinham que desocupar a reitoria. Obviamente esses estudantes que se propuseram a questionar a presença da PM não saíram, você pode considerar isso imaturidade ou ingenuidade também porque é óbvio que isso serviria para perpetuar a ideia de que o movimento não tem uma causa digna de ser contemplada e que estes estudantes são filhinhos de papai que não tem o que fazer. Eu entendo que se trata de acreditar fielmente naquilo que defende. Enfim, a polícia cumpriu a determinação da justiça e foi desocupar a reitoria e eu agora vou explicar como foi:
400 homens armados, com helicópteros, carros, cavalaria e bombas de efeito moral, um verdadeiro aparato de guerra para prender estudantes, sim são estudantes não são criminosos. Pergunto novamente: Quando a polícia que está para te proteger, surgiu com esse aparato todo para defender você? Você pode até achar que está certo, porque havia uma decisão judicial, mas eu tenho certeza absoluta que você não achará certo o que vou dizer a seguir, e que contempla o depoimento dos estudantes que não foi ouvido pela grande mídia, Globo, Veja e sites como Folha e Uol.
Antes de ocuparem a reitoria, os policiais invadiram a moradia estudantil,CRUSP, e lançaram bombas de efeito moral nas casas dos estudantes, sim porque aquele lugar é a casa desses estudantes, que geralmente são de outro estado ou cidade, e por isso conseguem esse benefício. Se o seu filho fosse morar na universidade em que estuda, você gostaria que a polícia invadisse a casa dele enquanto ele DORME? Acredito piamente que não. (ABAIXO EU VOU DEIXAR O LINK DOS DEPOIMENTOS DE TUDO QUE EU ESTOU NARRANDO AQUI, PARA NÃO PARECER ALGO CRIADO).
Os estudantes foram colocados e trancados dentro das salas da reitoria, 23 ou 24 estudantes mulheres foram colocadas em uma sala a parte com policiais homens que as agrediram fisicamente, você minha amiga mulher considera isso correto? Além disso, pegaram uma dessas estudantes e a amordaçaram, essa estudante começou a gritar e os estudantes cercados pelos policiais não podiam fazer nada, essa mesma estudante teve uma crise asmática e não foi socorrida, você que tem asma sabe o quão grave é uma crise não assistida.
Os policiais não deixaram que os estudantes que chegavam para estudar de manhã, sim porque tudo isso ocorreu da maneira mais límpida possível, as cinco horas da manhã, por que será? Enfim, os policiais não deixaram que esses estudantes que chegavam intervissem na ocupação e garantissem a integridade dos estudantes que estavam dentro da reitoria. E mais, os policiais não deixaram sequer que a grande mídia entrasse no local. Enfim, prenderam os estudantes e mentiram dizendo que eles haviam depredado a reitoria. O que os estudantes admitem é terem destruído o portão principal e as pichações. Não havia bombas, havia vinagre para protegerem suas respirações caso os policiais viessem com bombas de efeito moral. Os policiais foram quem destruíram cadeiras, quebraram janelas para poderem propagar na grande mídia que os estudantes haviam destruído o patrimônio público.
No dia seguinte eu participei da Assembléia do meu curso de Letras, e já com essas informações em mãos, eu simplesmente não poderia fingir que isso não era extremamente GRAVE!! Porque, achando uma manifestação coerente ou não, qualquer manifestação é legítima, é direito constitucional! E eu sou estudante, me reconheço nos estudantes que sofreram isso, e se fosse comigo nem sei o que seria capaz de fazer, caso conseguisse, com esses policiais.
Tudo isso abriu os meus olhos para uma questão que considero ainda mais grave: O que é segurança? O que é estado de direito? Quais são os limites da polícia? Ora, você sabia, meu amigo que trabalha e paga todos os impostos que a polícia de São Paulo mata mais que os EUA inteiro? Você sabia que ela pode te abordar da forma que quiser e depois se justificar dizendo que você era um "meliante" suspeito? Ora você meu amigo trabalhador, aceita isso????
Infelizmente a grande mídia nunca vai mostrar que a discussão nas Assembleias entre os alunos diz questão a pensar o que é segurança, além de suas questões internas, que por mais que neguem é legítima, a USP é uma autarquia, e quem definiu que ela seria uma bolha foi o estado. O mesmo estado que ao invés de criar mais USP'S para que qualquer paulistanozinho pudesse ter o direito de saber que não precisa apenas fazer um curso técnico e servir o mercado, mas que poderia também ser cientista!! Como eles fizeram isso? Sucatearam o ensino público e criaram o vestibular, dessa maneira a seleção é "natural", jovens que vieram dessa escola pública sucateada dificilmente conseguirão entrar na Universidade Pública. Eu não sei como consegui, porque vim de Escola Pública, fazia cursinho trabalhando das oito as seis e apenas com muito esforço e com a perda total da minha vida social, o esforço deu resultado. Você que é meu amigo é testemunha disso.
Ora, eu trabalhadora e estudante se um dia quisesse ocupar qualquer lugar que fosse e a polícia fizesse isso comigo, também jamais aceitaria!!! Não sou vagabunda e não sou filhinha de papai! E apesar da grande parte da USP só possuir estudantes com poder aquisitivo maior, possui também estudantes como eu!! A USP também serve estudantes pobres, sim pobre, porque poder comprar uma TV em 24 vezes não é ser Classe Média, aceite. E digo mais, ter dinheiro ainda não é crime com pena de não se poder pensar!
Eu pergunto a você, o que você quer para o futuro do seu estado??
Você quer trabalhar e cuidar da sua vida, você quer comprar a sua casa própria e poder viver tranquilamente, sem viver para ganhar dinheiro como alguns, mas estável. Ora, suponhamos que você adquira a sua casa própria, você sabe que o governo pode querer desocupar o local não é mesmo? Ora, você deve saber que o governo está fazendo isso no centro de São Paulo, onde a maioria dos meus amigos cresceram assim como eu, e você também sabe que é para vender para grandes empresas, não sabe? Ora, você também sabe que o governo NÃO quer pagar o valor devido pelos imóveis não sabe? Hoje eu não estou mais morando ali, na Santa Efigênia, mas como trabalho em contato direto com a Santa Efigênia por causa da informática, as informações veem dos lojistas. Ora caso isso ocorra com você no futuro, você obviamente não vai aceitar, obviamente vai se revoltar e obviamente vai se MANIFESTAR. Aí meu querido amigo, o que vai acontecer? A polícia vai te bater, criar provas contra você e dizer que você é arruaceiro e baderneiro.
VOCÊ TEM O DIREITO DE QUESTIONAR A SUA SEGURANÇA SIM! COMO CIDADÃO!!!
Eu aderi à greve na USP, porque essa questão é maior! Diz respeito àquilo que eu quero como estado de direito, diz respeito a uma democracia falsa em que se tenta governar pelo medo. Por falar nisso uma música do Rappa me vem à mente, e diretamente me associa ao Dinho, ouvi ontem e pensei: é por isso que aderi à greve: "A minha alma ta armada e apontada para a cara do sossego. Pois paz sem voz, paz sem voz, não é paz é MEDO! (...) É pela paz que eu não quero seguir ADMITIDO!".
É esse o tipo de política do nosso reitor, faz um convênio com a PM, porque é mais barato e eficaz para inserir o medo. Dessa maneira, pode ser mais corrupto e estar sob investigação como já está ocorrendo.
A desorganização dos estudantes é a coisa menos relevante quando a questão é maior, mas aos que defendem isso devo dizer: Não estamos desorganizados, as Assembleias ocorrem de maneira muito organizada em que todos que se proponham podem falar.
Informo a vocês meus amigos, as nossas bandeiras e o que queremos conseguir são:
- Fora PM do Campus.
- Fora Rodas/Estatuinte Soberana Já
- Retirada dos Processos contra os estudantes, que não são criminosos e estavam exercendo o seu direito!
- Segurança preventiva, com guarda universitária preparada para lidar com seres humanos!! Iluminação.
- Abertura da Universidade à Sociedade.

Além disso 10% do PIB para a educação está contido nas reivindicações que levaremos à manifestação de quinta-feira.
Foi o estado quem determinou, quando a USP foi criada para ser o cérebro do Brasil, que isso seria apenas privilégio de uma elite. Foi o estado quem determinou que a USP é uma autarquia. Mas a história está acontecendo, somos a história.
Estudantes que não tiveram privilégios são capazes de entrar na Universidade feita "para todos". Queremos a abertura da Universidade para que aquele lugar não seja de poucos, para que não seja um oásis a parte.
Isso é muito bom! Gostaria mesmo que todos fossem até lá, conhecessem os cursos, compreendessem que podem e devem exigir o mesmo para os seus filhos!!! Seus filhos podem ser cientistas! Os brasileiros devem ser cientistas, só dessa maneira conseguiremos crescer! E isso tem que ser gratuito sim! Para todos! Essa produção de conhecimento apenas favorece o país!
Por isso deixo o convite, quinta-feira faremos um ato na Paulista com início as 14h. Concentração na Praça Oswaldo Cruz, justamente porque queremos levar essa discussão para a sociedade. Vamos lá todos juntos, Movimentos Sociais que sofrem repressão, alunos, professores, cidadãos dignos que pagam seus impostos. Convite aberto para uma Aula de Democracia, que esperamos que seja dada pelo Excelentíssimo Governador Geraldo Alckmin que disse amplamente que precisávamos de uma aula de democracia. Nós estudantes convocamos o Governador para que venha para essa aula pública a TODOS! Vamos galera, juntos pensar o que é Segurança, o que é Democracia, o que é estado de direito. Vamos entender a importância da Universidade que eles querem que você acredite ser um problema. A USP não é um problema. O PROBLEMA É A SUA FALTA!!!

A foto é da Assembléia que decidiu por esse ato na quinta-feira, serve como prova àqueles que querem ainda dizer, que essa é uma manifestação de poucos. A Assembléia Geral é como o nome diz, geral, de todos os cursos da USP que aderiram a greve, não é só da FFLCH.
E uma informação aos que dizem que o problema é a FFLCH, a USP está entre as melhores universidades do mundo. Além disso possui quatro cursos que estão entre os 200 melhores do mundo, e esses quatro meus amigos é da FFLCH!!

Se ainda assim você não acha o movimento legítimo segue mais informações: Estudantes da Universidade de Freie em Berlin na Alemanha ocuparam suas salas e mandaram uma carta de apoio aos estudantes. Estudantes da França, Costa Rica, Chile, Colômbia e Bolívia estão organizando abaixo-assinados em favor dos estudantes da USP.

Segue o link de depoimentos, há mais pelo facebook, caso se interessem eu posto nos comentários.

http://www.facebook.com/notes/shayene-metri/desabafo-de-quem-tava-l%C3%A1-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse/233831886679892
http://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2392958955801&id=1605741784

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O caixão


Baseada em Akutagawa, autor japonês, eis que pari este conto para a conclusão do semestre de Literatura Japonesa III. Não sou escritora, mas vale compartilhar o esforço.

O Caixão

Tudo em volta estava escuro. Ouvia chiados que se assemelhavam a vozes; abriu os olhos e sentiu-se em pé, porém nenhuma imagem se mostrava nítida. Aos poucos as formas começaram a surgir e conseguiu identificar alguns vultos que cercavam um objeto comprido, similar a uma urna, retangular e branco; parecia um caixão. Um caixão? Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Um caixão! Mas como? Onde estaria? Um enterro? Lembrava-se de ter estado em sua casa, em seu quarto. Estivera sentada em cima da cama com seu caderno entre as pernas, aquele caderno em que escreveria o bilhete... Uma dor extrema e pulsante penetrou sua mente e fez com que perdesse as forças, sentiu-se obrigada a sentar-se no chão. Não compreendia o que se passava. Abaixada, abriu os olhos e conseguiu melhor enxergar, em frente ao caixão percebeu duas crianças. Começava a diferenciar cores e formas, o menino era muito pequeno, deveria ter três anos recém completos, a menina um pouco maior, com a cabeça erguida olhava curiosa em direção ao caixão; alguém a pegou no colo e apesar da dor latente que aumentava e a fazia querer gritar, pode ouvir com pouca nitidez:

- Olhe bem para a ela, esta é a última vez que a vê.

A pequena Sabrina não entendia muito bem o que acontecia. Tanta gente naquele parque bonito, com aquelas casinhas em que se colocavam essas camas de madeira. Por que sua mãe dormia ali? Por que não a veria mais? Começou a chorar, seu pai comovido tomou-a em seus braços e sentou-se no banco colocado ao lado da sua esposa morta. Sabrina com seus aproximados cinco anos, em sua confusão de pensamentos pouco conseguia distinguir; ainda não relacionara os fatos ocorridos naquele domingo.

Acordara alegre e feliz, abraçou o pai e implorou para que a levasse consigo à feira, domingo era dia de pastel. Seu pai, depois de tanta insistência cedeu aos desejos dos filhos, o pequeno Paulo apesar de não entender o que pedia, imitava a irmã com tanto talento que acabou por comover o pai. Resolveu avisar a esposa que levaria os filhos. Luzia levantou-se da cama, visualizou o caderno, lembrara-se de deixá-lo em seu criado mudo. Dirigiu-se em direção a sua filha e em um gesto estranho muito mais pelo momento do que pelo seu significado, beijou e abraçou fortemente a sua menininha. Tão linda! Será que seria feliz como não conseguia ser? Seus olhos lacrimejaram. Voltou-se para Paulo que já se deitara em seu travesseiro e a observava com seus olhos grandes e expressivos, pérolas que pareciam perceber o que desejava fazer. Sentou-se e pegou-o no colo, tão pequeno e indefeso; sussurrou em seus ouvidos palavras doces e beijou aquele rostinho que mais lhe parecia o de um anjo.

Francisco admirava a linda esposa tão carinhosa com seus rebentos, sorriu-lhe da maneira mais terna. Luzia retribuiu e em um ímpeto abraçou seu marido e beijou-o como na primeira vez. O marido estremeceu correspondendo-lhe com alegria, enfim sua esposa voltara ao normal; a tristeza anterior que a fizera esconder-se no quarto finalmente passara.

- Volto logo, meu bem.
- Traz pastel. Quero de pizza.

Com Sabrina em seus braços, o pai se recordava daquela manhã e dos gestos de sua esposa. Se soubesse... Poderia não ter levado os filhos, isso com certeza a impediria. Se tivesse percebido, certamente não teria ido à feira. Agora era tarde, as lágrimas escorreram-lhe os olhos e atingiram o rostinho de Sabrina, misturando-se com as da menina que observava inexpressivamente o irmão. Paulo encostou a cabecinha nas pernas de Sabrina e manteve o olhar assustado em direção à parede.

Luzia que agora enxergava claramente encontrou os olhos daquele menino, mas quem era? Por que a olhava com tanto afinco, por que parecia conhecer aquele olhar? Sentiu náuseas, a dor a entorpecia e a fazia querer vomitar. O que estava acontecendo? Sabia que se chamava Luzia, mas não entendia o porquê de assistir aquela cena. Tratava-se de um filme? Rendeu-se e deitou, o chão gelado parecia aliviar a dor que começava a suportar apesar de não diminuir. Lembrou-se de estar deitada em uma cama, sua cama, alguém a chamou, o caderno em um criado mudo, o seu criado mudo, o bilhete que escreveria: “Cansei de Viver”. Uma dor ainda mais forte sobrepujou-lhe o coração que palpitou freneticamente, não fizera, sabia que não teria coragem mesmo com tanta vontade. Estava viva, podia ver e pensar, mas por que quisera fazer algo tão terrível? Por que desejara acabar com a própria vida?

– A vida é inútil.

Luzia entornou a cabeça à direita, porém ninguém lhe falava, percebeu ser aquele um de seus pensamentos. A vida é inútil. Por quê? Tanta dor, tanto sofrimento, tanta desigualdade, aquela extrema pobreza em que vivera e que ainda subjugava sua família.
- Minha mãe! Meus irmãos! Josi!

Tanto sofrimento, aquele barraco que por vezes não tinha sequer arroz. Lembrou-se de quando fizera um bolo para os seus irmãos menores e sua mãe o jogara no chão alegando serem aqueles três ovos os únicos para a mistura da janta. Não poderia ser aquilo algo digno de se denominar vida.

– Mas a vida pode ser diferente, pode-se escrever a própria história!

À esquerda também ninguém se encontrava. Pode-se escrever a própria história? Sentou-se novamente, pensou reconhecer um rapaz que abraçava aquele homem com a menina nos braços. Encontrou o olhar do menino que ao perceber, enfiou-se entre as pernas do pai e o mirou com um olhar aturdido.

Ao receber o olhar de Paulo, o pai não pode decifrar o motivo pelo qual o menino se acanhara. Será que percebia a tristeza do ambiente? Será que entendia que sua mãe havia morrido? Lembrou-se do momento em que entrou no quarto, sua linda esposa caída com o rosto ensangüentado, que desespero! Aquela arma, onde conseguira? Soluçava com as lembranças, mas por mais dolorosas que fossem, precisava compreender, compreenderia? Suas mãos que acariciavam a cabecinha de Paulo, pareciam ainda conter o sangue que manchara sua pele no momento em que tocara a face de Luzia ao constatar o que a esposa fizera. Como fora capaz de abandonar a vida? E as expectativas dos filhos, seria um ser humano capaz de se abster das expectativas dos próprios filhos? Como ela pode fazer isso? Não era feliz com ele? Se não o fosse, porque simplesmente não se separou? Como pode fazer isso com a família, com os filhos? As pobres crianças agora cresceriam com a marca em suas histórias da mãe que se suicidou com um tiro na cabeça, que covardia! Ao menos os filhos deveriam ser motivo da existência de um ser humano, se é que se pode chamar de ser humano alguém que faça algo dessa estirpe. Enquanto os pensamentos de Francisco se enchiam de raiva, seus olhos secavam e sentia as mãozinhas de sua filha apertarem firmemente o seu corpo. Sabrina mirou o pai e com voz chorosa perguntou:

- Papai, porque a mamãe está dormindo nessa cama de madeira branca? Por que só aparece o rosto dela embaixo daquele vidro?

- Sua mamãe está dormindo minha filha, daqui a pouco vão levá-la para morar no céu, ela se tornará uma estrela e todas as vezes que você olhar para o céu ela será a estrela que brilha mais forte.

- Por que a mamãe vai embora papai?

Francisco não respondeu. Sabrina chorando tentava entender porque sua mãe iria embora, não gostava mais dela? Mas a tinha beijado ontem. Por que agora iria deixá-la? Sabrina sentiu uma mão sobre seu rosto, era sua tia Josi, a irmã mais próxima de sua mãe, chorava como a maioria das pessoas no salão:

- Ela estava com um sorriso falso Francisco, eu disse para ela que estava triste.

Sabrina recordou-se da cena, sua mãe sorria e ao ouvir as palavras de sua tia, observou o sorriso da mãe e não compreendeu como poderia estar triste se sorria daquela maneira. Não estava triste, sua tia enganara-se. Sentiu seu irmão abraçar a sua cintura, seus olhos fixavam a parede, virou o rosto e viu a janela, havia uma árvore grande, talvez Paulo quisesse subir. Paulo olhava fixamente naquela direção.

A dor continuava sem dar tréguas, Luzia contemplava a mulher parada diante das crianças, conhecia-a de algum lugar, de onde? Aquele barraco, seus irmãos:

- Josi! Josi! Eu estou aqui, minha cabeça dói. Me ajude! Ergueu-se para caminhar em direção à irmã, titubeou, a dor dificultava a caminhada. Se Josi estava ali, deveria ser o velório de algum conhecido, o menino a acompanhava fixamente, de onde conhecia aquele olhar? Quem estava naquele caixão branco, aproximou-se, olhou em direção ao caixão. Seria um espelho? Enxergava seu rosto ali, como era possível estar dentro daquela urna se estava viva assistindo a tudo?

- Josi, o que está havendo? Estou aqui, quem é essa mulher parecida comigo neste caixão? O que significa isso?

Mas a irmã não lhe respondia, não ouvia? Estaria sem voz? Aquele homem, de onde o conhecia? Aquela menina? A dor! Não conseguia pensar, era incessante e a fazia querer voltar à escuridão inicial, onde sem consciência a dor não existia. Pôs as mãos sobre o caixão fechado, olhou fixamente para o rosto da mulher embaixo daquela espécie de janela de vidro. Morrera? Morrera! Efetuara o plano, os olhos, Paulo! Entendera tudo, Mas como era possível? Não parava de perguntar a si mesma, como era possível? Quatro homens se aproximaram, pararam ao seu lado e suspenderam o caixão. Francisco com Sabrina no colo pegou a mãozinha de Paulo que voltou sua atenção ao pai, levantou-se, Josi se pôs ao seu lado. Agora reconhecia aquelas pessoas, seus amigos! Seus familiares! Seu velório! Começaram a andar e a levar o caixão de onde se encontravam. Como poderia estar dentro do caixão se estava em pé observando toda a cena? Prosseguiam e a dor tornava-se insuportável.

- Não! Eu estou aqui! Sabrina, Paulo, Francisco não deixem que me levem, eu estou aqui. Pode-se mudar a própria história! Posso mudar a minha história.

Compreendera tarde demais o pensamento que sempre a perseguira, mas que as marcas de sua dura infância e de pobreza extrema, tiranas, não permitiram que desse ouvido. Todos se direcionavam para fora do salão. Agora conseguia ver os arranjos de flores e sentia o cheiro forte que emanavam. Distanciavam-se, enquanto continuava ali, sem forças.

- Eu fiz! Eu fiz! Escrevi o bilhete! Como cheguei até aqui? Que dor! Que dor!
Era a dor do tiro, entendera finalmente! Insana, intensificava-se, a escuridão retornava lentamente e aquelas pessoas que tanto estimava, aos poucos voltavam a se transformar em vultos. O que fizera? As perdera?

- Não, não posso perdê-las, prefiro a escuridão, prefiro a inconsciência!
Caiu, sem forças e cedeu à insuportável dor. Paulo já não mais a observava. Perdia de vista as pessoas que amava e seu coração palpitava ainda mais acelerado que a primeira vez. Consciente sucumbiu e entregou-se à escuridão.